Evento realizado, necessária avaliação. Pergunto-me: o que quero levar do colóquio e guardar na memória? Uma coisa eu quero. Organizar e realizar um evento exige consciência de que se há de atravessar um mar de angústias. São tantas idas e vindas, tantas rejeições, adaptações e mudanças de rumo, busca aparentemente interminável de recursos... Num dia tudo parece estar encaixado. Noutro, tudo desandou. Mas quando passa e chega o alívio é bom sentir o gosto da realização. É gratificante trocar ideias com alunos de graduação, colegas professores e pós-graduandos e ver nos olhos deles o encantamento provocado pelos convidados que apresentaram suas conferências e relatos. Isso me mostra uma necessidade: não podemos deixar de criar para nos preservar da dor. Para fazer alguma coisa boa e se ter orgulho é preciso passar pela dor. Seja tal dor provocada pelo medo da incerteza ou pelo esforço do trabalho adicional que a responsabilidade assumida requer. Depois do acontecido, conscientes de que tudo foi muito bom, penso que todos concordaríamos em ter feito de novo se pudéssemos voltar ao passado.
Também quero levar de lembrança a notável participação dos profissionais que relataram suas histórias. Nelas foram traduzidas atitudes de segurança, profissionalismo, persistência e força de vontade. Mas também vi emoção, amor, respeito, cuidado e humanismo. Avigorei a ideia de que não dá pra construir muros entre a pessoa e o profissional; o contexto social-econômico-ambiental e o acontecimento particular; o fato e a crença ou a teoria geral e a prática cotidiana. Os sinônimos conversar, dialogar, confabular, prosear e mediar estão aí para ligar, aproximar, reunir, conectar e agregar. Conversações, sob esse sentido, cumpriu o propósito de desmistificar a separação que notadamente tem diminuído o poder da comunidade científica de influir positivamente na prática da gestão. Atualmente, acumular capital simbólico no campo científico da administração requer nível de abstração e internalização de linguagem que apenas afasta, separa e aliena o pesquisador do seu real objeto de interesse e de sua responsabilidade para com a transformação da realidade.
Uma última coisa para memorar. Se na primeira reforcei que para criar é preciso passar pela dor, ao me lembrar dos relatos apresentados reforcei a noção de que a dor muda as pessoas. Nisso se insere a experiência de professores que vivem o desassossego da busca interminável de meios para melhor cumprir sua missão, como também as trajetórias marcadas de idas e vindas por meio das quais pessoas alcançam improváveis certezas profissionais. De uma forma ou de outra, melhor do ter certas certezas é estar em constante estado inconformado de busca pelo ideal ainda não alcançado e talvez inalcançável, seja ele profissional, pedagógico ou ideológico. Reforcei uma intuição: saber conviver com a inquietude é aptidão indispensável de quem avança. Ao responder para que serve a utopia, o escritor uruguaio Eduardo Galeano faz uma linda explanação que cabe bem aqui. "A utopia está no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".
Por
Dany Flávio Tonelli
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